O grupo LEAP de Frank Biancheri publicou um artigo muito interessante sobre energia Nuclear que faz as pontes correctas sobre esta tecnologia.
A analogia com os sistemas operativos é particularmente acutilante. O DOS da Microsoft veio ao mundo Há 30 atrás para revolucionar a indústria da informática. Foi possivelmente o passo mais importante na direcção da visão “um computador em cada casa”, por oposição ao conceito anterior de processamento centralizado. Era um sistema muito básico, mas era também muito barato quando comparado com outros sistemas operativos da altura e mesmo relativamente ao preço das máquinas em que corria. Um sucesso sem dúvida, o utilizador podia correr muitas aplicações úteis, criar documentos, usar folhas de cálculo, criar grafismos, entreter-se com alguma programação básica, jogar jogos e mais. A utilizaçã de recursos não era perfeita, mas como poderia algum programa alguma vez usar mais que 640 Kb de memória? O DOS teve o seu papel no mundo dos computadores pessoais, mas a evolução tecnológica não ficou por aí. No início dos anos 1990 um estudante de informática finlandês criou o seu próprio sistema operativo, inspirado no UNIX tal como tinha sido o DOS. Baptizado de Linux, este novo sistema trouxe muitos avanços em relação ao DOS: a utilização correcta de recursos, o multi-processamento e acima de tudo a segurança, com a autenticação de múltiplos utilizadores e listas de controlo de acessos. Mas a revolução que o Linux iniciou não tanto técnica mas muito mais conceptual, o processo de desenvolvimento de programas evoluíu num sentido completamente diferente: o código fonte é aberto e de utilização livre. Qualquer um pode ler o código, testá-lo e contribuir com melhorias, um processo totalmente transparente que atingiu hoje uma dimensão incrível, com dezenas de milhares de alterações e evoluções todos os anos. Um grande exemplo de emergência, pela comunidade e para a comunidade. O resultado hoje é um vasto leque de opções (às quais acrescem ainda a escolha de ambiente gráfico e aplicações) que se pode adaptar às necessidade de qualquer: desde o sistema básico para um utilizador iniciado ler o e-mail e efectuar video-chamadas num computar antigo, ao ambiente altamente personalizado para programação em 3D, aos sistemas paralelizados de suporte a serviços de internet aos supercomputadores. Os Reactores de Água Pressurizada que protagonizaram histórias de horror como Three Mile Island, Chernobyl e Fukushima são grosso modo o DOS da tecnologia Nuclear. Inseguros, com muitas fraquezas inerentes ao desenho que podem resultar numa contaminação exterior e incapzes de utilizar os recursos correctamente: dependentes de um material fissionável escasso que não é completamente consumido no processo, deixando resíduos. Desenhos que lidam com estes assuntos (e ainda as questões de proliferação militar) existem desde os anos 1960, mas têm sido deixados ao pó em revistas científicas e catálogos de patentes. As razões estão bem patentes no artigo do LEAP. Para efectivamente entrar no século XXI a tecnologia Nuclear tem de encontrar o seu paradigma Linux. Um processo de desenvolvimento aberto, compreensível e contribuído pela comunidade, desligado de quaisquer interesses corporativos. Mas em determinado aspecto o LEAP talvez esteja a ser optimista: o tempo. Mesmo o Linux passou por um período de maturação até à sua definitiva expansão. Em meados dos anos 1990 o Linux era já uma melhoria para um utilizador avançado que por exemplo estivesse interessado em programação, mas para um utilizador básico a experiência não era tão apelativa; a simples tarefa de ligar um disco duro externo podia tornar um pesadelo. Mesmo se de um momento para o outro nascesse uma conciência geral de que os mass media não são uma fonte de informação fidedigna sobre a energia Nuclear e programas modernos fossem iniciados ou reatados, os resultados estariam a anos, talvez décadas, de distância. Eventualmente, com a China a desenvolver um programa Nuclear baseado na fissão do Tório e a disseminar essa tecnologia como forma de ganhar influência geo-política em certas regiões do globo, as cidadãos da OCDE começar-se-ão a interrogar. Porque é a transição para lá dos combustíveis fósseis tão dolorosa aqui enquanto outros gerem a situação muito melhor com tecnologia concebida inicialmente por nós? LEAP |