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Um número que vale mil palavras

Publicado a 05/01/2011, 13:40 por Pico DoPetroleo   [ atualizado a 05/01/2011, 13:45 ]
Que país é este, Portugal? Pequenos pormenores, perdidos no quotidiano do infotainment, dão por vezes mais indicações sobre um estado ou um povo que qualquer ensaio analítico. E neste caso, a realidade revelada por uma simples computação é grotesca. Há números que por si só assombram quando colocados no devido contexto.

Os media noticiaram ontem um incrível aumento de 40% nas vendas de automóveis ligeiros de passageiros durante 2010 em Portugal, para um total de cerca de 223 500 viaturas. Este número não é um recorde, mas só em 2002 se venderam mais automóveis desta categoria que no ano passado. E quanto mais caros melhor, marcas de luxo registaram aumentos de vendas na ordem dos 90%. Mas passe-se ao contexto, assumindo um valor médio de 30 000 € por viatura (que olhando à explosão nos automóveis de luxo deverá ser conservador), o total gasto pelos portugueses em automóveis ligeiros em 2010 rondará 6 700 milhões de €. E fora deste valor estão os ligeiros comerciais e os pesados.

Este número obsceno é mau por duas razões: em primeiro lugar por ir em grande parte para fora de Portugal (exceptuando os impostos), agravando o défice comercial e a dívida externa, e depois por mostrar o desnorte em que está hoje a Política Energética e de Transportes do país. Contextualizando: o custo total das ligações de alta velocidade de Lisboa ao Porto e de Madrid a Lisboa estavam orçamentadas em menos de 6 000 milhões de €.

Perante a demonização do TGV durante a última década por parte dos media e da maioria dos agentes políticos, que já conseguiu suspender as ligações a Vigo, Sevilha e o eixo Porto – Lisboa, este número cai incrivelmente mal. Nas últimas eleições legislativas apenas dois partidos indicavam nos seus programas de governo a intenção de ligar Portugal à rede de alta velocidade europeia; um deles não conseguiu assentos parlamentares. E isto não é uma mera coincidência política, é o resultado da vontade de uma sociedade que prefere gastar individualmente 6 700 milhões de € num só ano em veículos ultrapassados que colectivamente 6 000 millhões de euros ao longo de 36 anos na mobilidade do futuro.

Certamente que a ligação à rede de alta velocidade europeia pode ser questionada de um ponto de vista técnico. Será a tecnologia francesa a melhor? A mais barata? Porquê ligar primeiro Lisboa a Madrid, esquecendo a ligação aos Pirenéus que é a mais importante? Mas estrategicamente é impossível continuar a defender a política de transportes assente no alcatrão e no motor de combustão interna. Quanto esperam os portugueses pagar pela gasolina e o gasóleo em 2020? Em 2030? Em 2040?

A ferrovia de alta velocidade é algo como muitas outras coisas: funciona em Itália, funciona na Alemanha, funciona em França, funciona em Espanha, mas quando passa a fronteira para Portugal deixa de funcionar. Existem outros exemplos: o dia sem carros, as ciclovias, os transportes colectivos, e também noutras áreas como exemplifica a relutância social em abraçar o código aberto. Será que são os outros que estão todos errados e apenas Portugal está certo?

Público
Vendas de automóveis no ano passado são as melhores desde 2002
04.01.2011 - 09:43 Por Inês Sequeira

Portugal foi fortemente afectado pela crise económica em 2010, mas o ano que agora terminou foi o melhor dos últimos oito para o sector automóvel, que não registava vendas tão elevadas desde 2002, indicam os dados ontem publicados pela ACAP-Associação Automóvel de Portugal.

Entre Janeiro e Dezembro comercializaram-se 223.491 ligeiros de passageiros, o que representou uma subida de 38,8 por cento face a 2009. Este número só tinha sido melhor em 2002, quando o mercado registou 228.574 ligeiros comercializados.

Além de representar uma boa notícia para as marcas automóveis, que em 2009 tinham sido abaladas por uma quebra de 25 por cento nas vendas - o que tinha transformado esse ano no "período negro" das duas últimas décadas - a recuperação do mercado no final de 2010 também virá dar uma ajuda aos indicadores globais de consumo, uma vez que o sector tem um peso importante neste domínio.

Dezembro foi aliás, só por si, um mês de grande subida de vendas no mercado automóvel, que conseguiu crescer 61,9 por cento nas vendas de ligeiros de passageiros face ao último mês do ano anterior (para um total de 28.142 unidades) e 54,3 por cento no mercado em geral, incluindo os comerciais ligeiros e os veículos pesados.
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