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Uma nova era no mercado internacional de petróleo?

Publicado a 25/06/2011, 08:43 por Pico DoPetroleo
Na passada quinta-feira a Agência Internacional de Energia (AIE) deu um abanão ao mercado internacional de petróleo ao anunciar uma intervenção conjunta por partes dos seus membros. Nos próximos 30 dias o bloco de países importadores irá abastecer as refinarias directamente a partir das suas reservas estratégicas a um ritmo de dois milhões de barris por dia. O preço do barril de Brent (bitola por que se rege cerca de metade do mercado internacional, incluindo Portugal) desceu abaixo dos 110$, depois de quase 4 meses seguidos a cima dessa marca. Mesmo quando em 2008 o preço do Brent ultrapassou os 140$, não esteve acima de 110$ mais que 4 meses.

Reacções não se fizeram esperar, e para todos os gostos. Desde aqueles que saudaram a intervenção como um golpe certeiro contra a Organização dos Países Exportadores de Crude (OPEC) até aos que consideraram este como um acto de desespero e uma ingerência perigosa no regular funcionamento dos mercados. Diferentes efeitos a curto e a longo prazo permitem defender qualquer das perspectivas, mas esta intervenção poderá ser o prenúncio de uma mudança de paradigma muito mais profunda que o que transparece à superfície.

Esta é apenas a terceira vez que o bloco de países importadores de petróleo congregados na AIE decidem usar as suas reservas estratégicas de petróleo de forma coordenada. As duas intervenções anteriores tiverem lugar em 1990, durante a Guerra do Golfo, e em 2005, em consequência do furacão Katrina que arrasou Nova Orleães. Desta feita a intervenção totaliza 60 milhões de barris de petróleo, a lançar no mercado ao longo dfe sensivelmente um mês.

Aproxima-se no Hemisfério Norte a chamada “época da condução” (do inglês driving season) um período que vai sensivelmente de meio de Julho a meio de Setembro durante o qual o consumo de combustíveis aumenta significativamente com as viagens de férias de boa parte da população. Esta acção de emergência dá a entender que as companhias petrolíferas não teriam matéria prima suficiente para suprir convenientemente a subida do consumo estival e evitar uma nova escalada dos preços.

No curto prazo esta intervenção tem aspectos positivos, ao prevenir o despoletar de uma nova recessão económica na OECD pela alta de preços. Também mostra que os países importadores de petróleo têm capacidade para responder coordenadamente a desequilíbrios do mercado, quando a OPEC se mostrar incapaz de o fazer. O cartel de exportadores reuniu no passado dia 8 sem tomar qualquer decisão formal no sentido de abastecer mais petróleo ao mercado. Tal deve-se ao facto de apenas três dos seus membros terem hoje capacidade de exportação extra para intervir no mercado: Kuwait, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita. Na realidade este trio até tem produzido mais petróleo que aquele determinado pela sua quota da OPEC, mas até ao momento sem que tal tivesse efeitos visíveis. Também no curto prazo são óbvios os ganhos políticos de quem está de momento no poder nas democracias da OCDE.

No longo prazo esta intervenção poderá ter impactos mais negativos. A baixa de preços artificial induzida pelos membros da AIE interrompe (ou pelo menos atenua) o processo de destruição da procura imposto pelos preços altos. Com esta intervenção a procura terá mais espaço para crescer, a prazo colocando pressão adicional no mercado. O Inverno no Hemisfério Norte é tradicionalmente o período em que o consumo mundial de petróleo atinge o valor mais alto no ano; a benesse providenciada pela AIE hoje poderá vir a ter um efeito perverso em Novembro/Dezembro quando o frio aumentar as necessidades de aquecimento. Do lado da oferta esta intervenção apresenta um sinal errado, que pode pôr em risco investimentos em fontes de menor proveito energético, como são as areias betuminosas ou a exploração marítima de águas profundas, tendo a prazo um efeito negativo na capacidade mundial de produção.

Mas um olhar mais atento a esta intervenção revela algo mais profundo. Os membros da AIE (que coincidem em grande medida com a OCDE) estão comprometidos em reter reservas estratégicas equivalentes a 90 dias de importações líquidas; no entanto essas reservas estão hoje em 146 dias. Com a entrega dos 60 milhões de barris acordados, este valor desce em apenas 2 dias de importações, para 144, ainda bem acima do valor mínimo. Perante a inoperância da OPEC esta intervenção talvez seja o sinal de uma mudança fundamental do mercado de petróleo, em que a tarefa de balizamento de preços passa para a lado dos países importadores. Neste novo paradigma os países importadores aumentam as suas reservas estratégicas quando o preço do crude for inferior a determinado intervalo alvo e fornecem o mercado caso o preço exceda esse mesmo intervalo. Não sendo algo declarado, os volumes totais das reservas estratégicas da AIE tendem a indicar uma preparação para algo deste género, com doravante uma intervenção mais regular no mercado. É uma nova era que se poderá estar a abrir.

Esta estratégia poderá ser o último reduto da OCDE antes de medidas mais complexas como o racionamento. Será também um claro sinal de que a oferta deixou de responder aos preços.

International Energy Agency
IEA makes 60 million barrels of oil available to market to offset Libyan disruption

23 June 2011 Paris --- International Energy Agency (IEA) Executive Director Nobuo Tanaka announced today that the 28 IEA member countries have agreed to release 60 million barrels of oil in the coming month in response to the ongoing disruption of oil supplies from Libya. This supply disruption has been underway for some time and its effect has become more pronounced as it has continued. The normal seasonal increase in refiner demand expected for this summer will exacerbate the shortfall further. Greater tightness in the oil market threatens to undermine the fragile global economic recovery. 

In deciding to take this collective action, IEA member countries agreed to make 2 million barrels of oil per day available from their emergency stocks over an initial period of 30 days. Leading up to this decision, the IEA has been in close consultation with major producing countries, as well as with key non-IEA importing countries. 

The IEA estimates that the unrest in Libya had removed 132 mb of light, sweet crude oil from the market by the end of May. Although there are huge uncertainties, analysts generally agree that Libyan supplies will largely remain off the market for the rest of 2011. Given this loss and the seasonal increase in demand, the IEA warmly welcomes the announced intentions to increase production by major oil producing countries. As these production increases will inevitably take time and world economies are still recovering, the threat of a serious market tightening, particularly for some grades of oil, poses an immediate requirement for additional oil or products to be made available to the market.  The IEA collective action is intended to complement expected increases in output by these producing countries, to help bridge the gap until sufficient additional oil from them reaches global markets.

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