A situação repete-se todos os anos: o frio aperta e o Reino Unido tem que racionar o abastecimento de Gás Natural. Este Inverno não é excepção mas com a diferença de que o frio e a neve chegaram mais cedo do que o habitual.
A situação energética no Reino Unido é um dos casos mais irónicos na União Europeia e no talvez no mundo. Depois de décadas de abundância providenciadas pelo Mar do Norte, em que o Gás Natural e Petróleo foram suficientes para o Reino Unido se tornar exportador, este estado contempla hoje um cenário de constrangimento. Não só não foram pensadas as alternativas para quando o Mar do Norte entrasse em declínio como foi planeado o fim do programa Nuclear para a mesma altura. Hoje quase metade da electricidade consumida no Reino Unido é gerada a partir do Gás Natural, numa senda de consumo crescente que tenta colmatar a quebra da geração Nuclear ou a Carvão. Mas ao mesmo tempo a produção interna cai a um ritmo estonteante, por volta de 10% ao ano. As importações deveriam pois estar a crescer a um ritmo superior a esse, mas não estão. No mercado continental, ao qual a Grã-Bretanha está ligada por gasoduto com a Bélgica, não tem sido possível encontrar os volumes necessários, para além de que, em períodos em que o preço no continente é superior ao das ilhas, o fluxo do gás é invertido e o Reino Unido torna-se exportador. Resta o mercado global de gás liquefeito transportado por navio, o qual tem aparentemente boas perspectivas perante a disponibilidade recente de gás natural não convencional na América do Norte. No entanto até ao momento o gás natural liquefeito também não está a ter impacto nas reservas do Reino Unido. No Inverno passado o abastecimento de Gás Natural à indústria foi cortado pela Rede Nacional de energia várias vezes entre Janeiro e Fevereiro, em especial depois de a Grã-Bretanha ter ficado totalmente coberta de neve na primeira semana de 2010. Estes cortes selectivos permitiram manter o abastecimento doméstico e a geração eléctrica. A meteorologia na semana que presentemente decorre parece ser semelhante, mas o Inverno está ainda agora a começar. Para esta noite a previsão meteorológica é de temperaturas de -20 ºC em partes da Escócia. Falando à BBC, alguns escoceses referiram que tal quantidade de neve em Novembro é algo que as gerações actuais nunca tinham testemunhado. O que em si é parte do problema que o Reino Unido enfrenta: depois de décadas a prever tempo meteorológico cada vez mais quente, a autoridade local de previsão, o Mett Office, viu-se obrigado a suspender as suas previsões de longo prazo, sob a pressão de vário falhanços rotundos consecutivos. Há menos de dez anos o Mett Office anunciava o fim da neve em Inglaterra, mas a realidade é hoje o exacto inverso. Com as reservas de Gás Natural 20% abaixo do que eram por esta altura o ano passado, não demorará até que a Rede Nacional de energia reinicie os cortes de abastecimento selectivos. Restará saber se será já este Inverno que as populações sentirão na pele a crise energética do Reino Unido.
Reuters |
