4 Quando?

Então quando se dará o Pico e o subsequente Esgotamento irreversível? A resposta teórica é simples, quando forem extraídas exactamente metade das reservas existentes. É claro que na prática não é tão simples.

Em primeiro lugar as reservas totais não são conhecidas, todos os anos são encontradas novas reservas, pelo que têm de ser estimadas. No entanto a descoberta de reservas segue igualmente uma curva e Hubbert, pelo que podem ser estimadas com alguma precisão as reservas que serão encontradas no futuro. A descoberta de reservas teve o seu auge mundial nas décadas de 1960 e 1970, estando em queda desde então.

Mas o maior poblema é não existir uma entidade independente que declare as reservas mundias de petróleo, tipicamente cada país relata as suas como mais lhe convém. Este problema regista-se sobretudo com os países da Organização dos Países Exportadores de Crude (OPEC). Como é conhecido, a OPEC é um cartel de países que exportam petróleo que se uniram para manter os preços do petróleo em níveis convenientes. A OPEC aumenta ou reduz a produção quando considera o preço acima ou abaixo dos seus interesses. Ora, para atingir tal acerto é atribuída a cada país uma quota de produção consoante as suas reservas, quanto maiores as reservas mais petróleo o país vende. Na década de 1980 alguns países dicidiram aumentar as suas reservas declaradas para terem maior quota de produção. Primeiro foi o Koweit, depois os Emirados, depois o Irão com o Iraque logo a seguir e por fim a Arábia Suadita. As reservas declaradas nestes países duplicaram literalmente da noite para o dia.

A partir desta altura as contas do Pico do Petróleo tornaram-se mais complicadas. Existem duas facções mais ou menos distintas, as companhias petrolíferas e os investigadores independentes. Os primeiros apontam normalmente para datas posteriores a 2020, os segundos quase sempre para algures antes de 2010.

A Associação para o Estudo do Pico do Petróleo e Gás (ASPO) foi fundada pelo geólogo irlandês Colin Campbell, e tem como principal objectivo estudar o momento do pico destes dois recursos. Esta associação argumenta que o modelo de Hubbert é fundamentalmente correcto, e calcula que o pico de produção ocorrerá por volta de 2010, após o qual se inciará o declínio. Este ano é obtido estudando o chamado Petróleo Convencional (que excluí os petróleos pesados, os betumes, o petróleo extraído das areias e de reservas subaquáticas de alta profundidade) separadamente dos outros hidro-carbonetos, e considerando os aumentos das reservas da OPEC da década de 1980 irreais. As reservas globais de Petróleo Convencional são estimadas pela ASPO em 1850 Giga-barris (Gb), e para a totalidade do Petróleo incluindo o não convencional e os óleos obtidos a partir do carvão 2400 Gb.

Outros independentes apontam para mais cedo, mesmo para agora. Kenneth Deffeys, que foi colega de Hubbert na Shell, apresentou no início desta década o intervalo entre 2003 e 2007 como a altura mais provável para o Pico. Mais recentemente deu a conhecer cálculos que mostram que o Pico do Petróleo Convencional foi passado em Dezembro de 2005. T. Boone Pickens é um eminente investidor e banqueiro amaricano, que com alguma dose de intuição previu em 2004 que em 2005 a produção não iria acompanhar a procura crescente, passando depois disso a retrair-se.

As companhias variam na sua previsão, provavelmente de acordo com os seus investimentos futuros, por exemplo a Chevron-Texaco fala já do "fim do petróleo fácil", outras como a BP apontam o pico só para depois de 2020. Um estudo típico foi o apresentado pela portuguesa Partex, na conferência da ASPO de 2005. As reservas globais de petróleo são colocadas em 2500 Gb, o que resultará num período de produção plana sensivelmente entre 2020 e 2025, período a partir do qual se dará um declínio rápido, mais acentuado que o período de crescimento. Este tipo de modelos não segue o de Hubbert.

Numa categoria à parte está um estudo de 2000 do United States Geological Survey (USGS), que põe as reservas globais em 3000 Gb, prevendo o Pico por volta de 2037, possibilitado por avanços na tecnologia de exploração. Mesmo no seio da industria petrolífera este estudo é visto como optimista.

No início de 2005 veio subtilmente a público um relatório do governo francês que aponta o Pico do Petróleo para 2012. No final do mesmo ano um estudo do governo alemão colocou o Pico em 2013, considerando reservas globais de 2800 Gb. Estes estudos passaram quase despercebidos na comunicação social mas é de notar que apontam para uma data mais próxima da calculada pela ASPO do que das mais optimistas. De facto se retirarmos das reservas globais que avançam os aumentos não explicados dos países da OPEC o resultado seria em tudo semelhante ao da ASPO.

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